sábado, 23 de novembro de 2013




Sem dizer o fogo – vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso – duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei, já lá está, mas não est...ão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.

  Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedras, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.

  Caminho um caminho de palavras
  (porque me deram o sol)
  e por esse caminho me ligo ao sol
  e pelo sol me ligo a mim


  E porque a noite não tem limites
  alargo o dia e faço-me dia
  e faço-me sol porque o sol existe

  Mas a noite existe
  e a palavra sabe-o.

António Ramos Rosa

 

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