quarta-feira, 3 de junho de 2015



Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
... Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista


Cora Coralina



As Minhas Ilusões Hora sagrada dum entardecer
De Outono, à beira-mar, cor de safira,
Soa no ar uma invisível lira ...
O sol é um doente a enlanguescer ...

A vaga estende os braços a suster,
... Numa dor de revolta cheia de ira,
A doirada cabeça que delira
Num último suspiro, a estremecer!

O sol morreu ... e veste luto o mar ...
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
À flor das ondas, num lençol de espuma.

As minhas Ilusões, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna de oiro,
No mar da Vida, assim ... uma por uma ...

Florbela Espanca


Interioridade

Aqui estou, cercada de mim,
melancolia trazida
do interior de um bosque,
silhueta a preto e branco
... na figuração de um pássaro em voo lento.

Há quanto tempo,
só eu sei quanto,
as amarras de um barco
se quebraram,
no interior frágil
do instante em que fui vento,
ou apenas um abandono breve,
como as mãos no acto de dar.

No ângulo do grito e da língua
se explica a leveza das lágrimas,
circunfluência no interior das pálpebras,
longínquo lago na cintura dos lábios.

Cheguei ao lugar onde se cruzam
todos os ventos sem hálito
e chamo pelo nome os frutos e a fome,
para que ninguém se comprometa
ao tocar nos meus ombros.

Graça Pires

Acreditei no mar
Percorri a umbria de um eclipse 
que nas vagas não reflectia

Apaguei os olhos e sorri com uma lágrima

Ao abrir , fitei o azul 

o azul do céu , do mar e da lua

Ouvi  então estremecerem as ondas 
e a areia lacrimar.

Voltaram os raios lunares, 
voltei ao luar da noite
húmida e fria 
em que me movo 
e te deito.

Minha gárgula de vida,
meu eterno mar.



Nuno Travanca





Espáduas brancas palpitantes:
asas no exilio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.



Natália Correia


Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.



Sophia de Mello Breyner Andresen



ACASO


  Teus lábios sem querer
roçaram os meus
na hora da despedida.
Não houve o beijo
apenas o rubor
das nossas faces,
o coração
pulando como um louco
por tão pouco....
Há muito que já perdemos o paraíso.
E o novo que queremos
e que temos que construir,
não se encontra no equador
ou nos mares quentes do Oriente.
Ele se encontra dentro de nós mesmos....

Hermann Hesse



“Nada mais desejava a não ser calma, a não ser um fim, nada mais desejava além de fazer cessar a rotação dessa roda, esse infindável desfilar de imagens, suprimindo-os. Desejava alcançar a paz interior, desejava desaparecer...”

Hermann Hesse


A felicidade é amor, só isto.
Feliz é quem sabe amar. Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar....

Hermann Hesse



Na dança da vida
A musica toca o que sentimos na alma

Otilia Martel



Adoro caminhar em silencio pelas sombras. Sou um bicho da noite,
do crepúsculo, uma caçadora noturna. O barulho me fere a alma;
busco a quietude, o contato comigo mesma e com a natureza.

Léa Waider


Num instante,
o tecto se torna céu
e o escuro se torna leito.
A noite é escassa
para tanta saudade.
...
 Mia Couto
 
"Eu sou - te como tu me és....

 Cala o fluxo sensacional do teu corpo
e encontrarás em mim, intactos,
os teus medos e as tuas penas".

 (Anais Nin)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014





No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser…,
Este pequeno universo provinciano entre os astros,
Esta aldeola do espaço,
E não só do espaço visível, mas até do espaço total.

Álvaro de Campos









quarta-feira, 15 de janeiro de 2014






....Eis que o sonho dorme agora aqui comigo,
seu corpo repousa no meu peito.

Flora Figueiredo


Ergue-se
do mundo
em mim o que sou.
Estou talvez só.
Mas com decisão
na dor o aceito....


Que importa o rumo
por que sigo
ser imperfeito?


Exacto e duro,
tudo procuro
compreender.
Pensar é ir.
Ir é ser.

Armindo Rodrigues

 
 

sábado, 28 de dezembro de 2013



Na vertigem do oceano

vagueio

sou ave que com o seu voo
...
se embriaga

Atravesso o reverso do céu

e num instante

eleva-se o meu coração sem peso

Como a desamparada pluma

subo ao reino da inconstância

para alojar a palavra inquieta

Na distância que percorro

eu mudo de ser

permuto de existência

surpreendo os homens

na sua secreta obscuridade

transito por quartos

de cortinados desbotados

e nas calcinadas mãos

que esculpiram o mundo

estremeço como quem desabotoa

a primeira nudez de uma mulher

Mia Couto
Raiz de Orvalho
 
 






........Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento....


Pablo Neruda


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Afterlife - "take me inside"



In the dark there's a space that's calling me
There's a flame of light that's burning
And the sun never casts a shadow here
And the daylight doesn't matter

Take me inside
Take me inside

You're the journey that keeps taking me
And the parts of your heart discover
And the tide is rushing over me
Your taste is like a treasure

Take me inside
Take me inside
Take me inside
Take me inside

In the dark there's a space that's calling me
There's a flame of light that's burning
And the sun never casts a shadow here
And the daylight doesn't matter

Take me inside
(Take me inside)
Take me inside
(Take me inside)
Take me inside

BLISS BREATHE




Levantei-me cambaleante e dancei a sorte,
a esperança e as emoções ...

Claudia Perotti



Hoje quero sonhar um pouco mais e depois acordar sorrindo...

Claudia Perotti

Não sou madura bastante ainda......
Ou nunca serei......

Clarice Lispector


A soma de todos os atos de nossa história de vida poderia ser resumida unicamente no fato de que não somos nem santos e nem vilões, apenas criaturas em busca do amor...

Hammed

Reluzia marés e adormecia estrelas....

Claudia Perotti

sábado, 23 de novembro de 2013




Sem dizer o fogo – vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso – duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei, já lá está, mas não est...ão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.

  Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedras, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.

  Caminho um caminho de palavras
  (porque me deram o sol)
  e por esse caminho me ligo ao sol
  e pelo sol me ligo a mim


  E porque a noite não tem limites
  alargo o dia e faço-me dia
  e faço-me sol porque o sol existe

  Mas a noite existe
  e a palavra sabe-o.

António Ramos Rosa

 

.......Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen...


Cada árvore é um ser para ser em nós

Para ver uma árvore não basta vê-a

a árvore é uma lenta reverência
...
uma presença reminiscente

uma habitação perdida

e encontrada

À sombra de uma árvore

o tempo já não é o tempo

mas a magia de um instante que começa sem fim

a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas

e de sombras interiores

nós habitamos a árvore com a nossa respiração

com a da árvore

com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses


António Ramos Rosa

domingo, 10 de novembro de 2013

Não sei se respondo ou se pergunto

Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
...
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo, não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta
                                                                           [nascente.

Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida. Estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.

Sou alguem que espera ser aberto por uma palavra.



António Ramos Rosa
 
 


Ante a luz, porém, seus olhos todos se amarelavam,
claros e luminosos, salvo uma estreitinha fenda preta.

Por detrás dessa fenda o que é que ele viu? ...
Adivinham?
Pois ele viu um gato preto,
enroscado do outro lado do mundo.

Mia Couto



...Apodreço sobre a máscara que tão pacientemente inventei e usei para fazer frente ao mundo. E a máscara, sem que eu desse por isso, colou-se-me à cara, ensanguentou-se, já não conseguia arrancá-la. Passou a ser o verdadeiro rosto, e o me...u rosto, tanto tempo escondido debaixo dela, passou a ser a máscara... não aguentava mais, Beno...
...Nenhum espelho me reconhecera, e o meu corpo - tantas vezes possuído, maltratado, e também sofregamente amado - está agora em repouso, não precisa mais da sua imagem andrógina para sobreviver, nem precisa de espelhos, tudo é escuro aqui, e ninguém lhe tocará mais...


Al Berto

O meu tempo é eterno.
Habito os céus
Que as aves deixaram vazios
Há já tanto tempo.
Talvez não saibas
Que povoas os meus pensamentos,...
Que tomas forma nos meus sonhos.
Quando te vier buscar
Tomarei tuas mãos,
Trocaremos palavras
Pela eternidade do nosso olhar…
Eu sou o anjo do desespero.

Paulo Eduardo Campos
 


 

sábado, 9 de novembro de 2013


"........Olho fixamente a ilha, mesmo durante a noite, quando ela tem o perfil duma cabeça deitada sobre as águas. Deixo a vida escoar-se ao ritmo das migrações das aves. E ao fim de muitos anos descobri que a ilha é um lugar que cresceu, misteriosamente, dentro de mim. O meu corpo transformou-se em ilha. Olho a ilha, sou a ilha...."


Al Berto
 

".......Como é estranha a minha liberdade
As coisas deixam-me passar
abrem alas de vazio p'ra que eu passe
Como é estranho viver sem alimento
Sem que nada em nós precise ou gaste
Como é estranho não saber......."...

Sophia de Mello Breyner

 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013




"Não queiras mais que a gratuita lucidez / do instante sem caminho"


 António Ramos Rosa (1924-2013)



“Sê contrária à insensibilidade. Vê.
Alguém te espera ou em si espera
Que enfim chegues”

- Maria Gabriela Llansol

 


"O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não"

- Fernando Pessoa (texto sem data).

terça-feira, 22 de outubro de 2013




Pelo menos duas...





“Existiram sempre em mim pelo menos duas mulheres, uma desesperada e desnorteada, que se sentia a naufragar, e outra que queria apenas trazer beleza, graciosidade e vida às pessoas, e que estava pronta a entrar em cena como no teatro, pronta a ocultar as suas verdadeiras emoções, porque elas eram fraqueza, desamparo, desespero, e a apresentar ao mundo apenas um sorriso

 (Anais Nin)

 



”Não há memória mais terrível do que a da pele. A cabeça pensa que esquece, o coração sente que passou, mas a pele arde, invulnerável ao tempo."

Inês Pedrosa

 

terça-feira, 23 de abril de 2013



sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
... foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mão da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo.
(...)

Al Berto

segunda-feira, 22 de abril de 2013




Da grande página aberta do teu corpo
Da grande página aberta do teu corpo
sai um sol verde
um olhar nu no silêncio de metal
uma nódoa no teu peito de água clara

Pela janela vejo a pequenina mão
de um insecto escuro
percorrer a madeira do momento intacto
meus braços agitam-te como uma bandeira em brasa
ó favos de sol

Da grande página aberta
sai a água de um chão vermelho e doce
saem os lábios de laranja beijo a beijo
o grande sismo do silêncio
em que soberba cais vencida flor



António Ramos Rosa

quarta-feira, 20 de março de 2013

Foto: Faltam-te pés para viajar?
 Viaja dentro de ti mesmo, 
 e reflete, como a mina de rubis,
 os raios de sol para fora de ti.

A viagem conduzirá a teu ser,
 transmutará teu pó em ouro puro.




Sofreste em excesso
 por tua ignorância, 
 carregaste teus trapos
 para um lado e para outro,
 agora fica aqui.


Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
 Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
 Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
 Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.


Rumi
Foto Kassandra

Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
e reflete, como a mina de rubis,
os raios de sol para fora de ti.

A viagem conduzirá a teu ser,
... transmutará teu pó em ouro puro.




Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.


Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.


Rumi
Foto Kassandra

segunda-feira, 11 de março de 2013

Foto


"Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondido e, de repente, salta para fora de mim, querendo atingir todo mundo. Tão inesperada quanto a vontade de ferir, e com o mesmo ímpeto, a mesma densidade. Mas é mais frustrante. Sempr...e encontro a quem magoar com uma palavra ou um gesto. Mas nunca alguém que eu possa acariciar os cabelos, apertar a mão ou deitar a cabeça no ombro. Sempre o mesmo círculo vicioso: da solidão nasce a ternura, da ternura frustrada a agressão, e da agressividade torna a surgir a solidão. Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez, outras mais lentamente. E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda de sentimentos que se sucedem e se sucedem e deixam sempre sede no fim."


Caio Fernando Abreu