sábado, 23 de novembro de 2013




Sem dizer o fogo – vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso – duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei, já lá está, mas não est...ão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.

  Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedras, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.

  Caminho um caminho de palavras
  (porque me deram o sol)
  e por esse caminho me ligo ao sol
  e pelo sol me ligo a mim


  E porque a noite não tem limites
  alargo o dia e faço-me dia
  e faço-me sol porque o sol existe

  Mas a noite existe
  e a palavra sabe-o.

António Ramos Rosa

 

.......Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen...


Cada árvore é um ser para ser em nós

Para ver uma árvore não basta vê-a

a árvore é uma lenta reverência
...
uma presença reminiscente

uma habitação perdida

e encontrada

À sombra de uma árvore

o tempo já não é o tempo

mas a magia de um instante que começa sem fim

a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas

e de sombras interiores

nós habitamos a árvore com a nossa respiração

com a da árvore

com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses


António Ramos Rosa

domingo, 10 de novembro de 2013

Não sei se respondo ou se pergunto

Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
...
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo, não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta
                                                                           [nascente.

Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida. Estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.

Sou alguem que espera ser aberto por uma palavra.



António Ramos Rosa
 
 


Ante a luz, porém, seus olhos todos se amarelavam,
claros e luminosos, salvo uma estreitinha fenda preta.

Por detrás dessa fenda o que é que ele viu? ...
Adivinham?
Pois ele viu um gato preto,
enroscado do outro lado do mundo.

Mia Couto



...Apodreço sobre a máscara que tão pacientemente inventei e usei para fazer frente ao mundo. E a máscara, sem que eu desse por isso, colou-se-me à cara, ensanguentou-se, já não conseguia arrancá-la. Passou a ser o verdadeiro rosto, e o me...u rosto, tanto tempo escondido debaixo dela, passou a ser a máscara... não aguentava mais, Beno...
...Nenhum espelho me reconhecera, e o meu corpo - tantas vezes possuído, maltratado, e também sofregamente amado - está agora em repouso, não precisa mais da sua imagem andrógina para sobreviver, nem precisa de espelhos, tudo é escuro aqui, e ninguém lhe tocará mais...


Al Berto

O meu tempo é eterno.
Habito os céus
Que as aves deixaram vazios
Há já tanto tempo.
Talvez não saibas
Que povoas os meus pensamentos,...
Que tomas forma nos meus sonhos.
Quando te vier buscar
Tomarei tuas mãos,
Trocaremos palavras
Pela eternidade do nosso olhar…
Eu sou o anjo do desespero.

Paulo Eduardo Campos
 


 

sábado, 9 de novembro de 2013


"........Olho fixamente a ilha, mesmo durante a noite, quando ela tem o perfil duma cabeça deitada sobre as águas. Deixo a vida escoar-se ao ritmo das migrações das aves. E ao fim de muitos anos descobri que a ilha é um lugar que cresceu, misteriosamente, dentro de mim. O meu corpo transformou-se em ilha. Olho a ilha, sou a ilha...."


Al Berto
 

".......Como é estranha a minha liberdade
As coisas deixam-me passar
abrem alas de vazio p'ra que eu passe
Como é estranho viver sem alimento
Sem que nada em nós precise ou gaste
Como é estranho não saber......."...

Sophia de Mello Breyner

 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013




"Não queiras mais que a gratuita lucidez / do instante sem caminho"


 António Ramos Rosa (1924-2013)



“Sê contrária à insensibilidade. Vê.
Alguém te espera ou em si espera
Que enfim chegues”

- Maria Gabriela Llansol

 


"O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não"

- Fernando Pessoa (texto sem data).