domingo, 22 de março de 2009


Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
venho dormir junto de ti
e o meu corpo é uma coisa diferente
do que se vê ou toca ou sente;
é, fora de mim,
essa coluna de ar onde respiro,
olhos que beijam o teu corpo exacto,
as muitas mãos que dobram o teu rosto.
Um deus que dorme,
um deus que dança,
e mais
que um mero deus,
o breve amor do tempo.
Tantas estradas retas
que vão dar no céu
e o caminho sinuoso
é o que me chama,
com seus buracos, pedras
e ausência de cruzes.
Estradas que não se cruzam
nem se sobrepõem.

Se sigo o caminho pior
que só faz mal a mim
e a mais ninguém
sou cobrado pela boca do mundo
que me fez chorar
me fez querer
roubou minha vida
meus sonhos retém
e que me aponta a estrada reta
...o caminho do bem.

Com o consentimento da neve
caminharei devagar.

Alguém haverá à espera junto do fogo
e eu, que estarei cega pelo frio,
farei paragens breves,
sacudirei o guarda-chuva
e começarei de novo.

O único segredo é não sentir-se
imensamente cheio de verdades.
Não aceitar nunca os convites
que o nevoeiro
sugere ao fazer ninho com os seus disfarces
de paisagem feliz, de grandes sonhos.

Alguém haverá que diga,
perdeu-se,
alguém sairá a procurar-me,
e levará o calor de uma garrafa
onde poderei mandar-te esta mensagem.

sábado, 21 de março de 2009



Que ninguém hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa,
esta dor sem nome que eu desconheço
donde vem e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao mundo.
Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.

Sonhos meus, ateus,
que desde sempre almejo

meus lábios rudes nos teus
húmidos de desejo.



Um pingo,
a lágrima.
Um rosto sincero
que chora.
E triste,
vai indo.
Chovendo,
esquecendo
a chuva lá fora.

Rasgo os meus pensamentos em mil pedaços.
Mil pedaços são as partes em que coso…
Derivo em mim, como se já não me sentisse em mim.

Imagens que tento esquecer
Enquanto luares conspiradores me extenuam a alma,
0 teu rosto desperso entre auroras pérfidas
E doces brisas que me gelam os ossos…

Controlas a vontade que há mim,
De não querer acordar mais!
Bebo em sulcos ansiosos, o audível silêncio
Que me desperta devagar em tons monocórdicos

Não sei onde encontrar razões para não ouvir
O suave gemido da solidão…
Penso mesmo em não pensar,
A triste música balbucia, resta-me apenas me entregar…
Tu me fascinas e encantas
como o fazem as sereias
com navegantes intrépidos
de incauta inocência incrédulos dos perigos.
Me atraem teus mistérios
e teu canto me seduz
para mergulhar em teus domínios
me esquecer do que sou,
do que fui,
para somente
— ser
— em ti.
Ser forte sem fazer força.
Ser veloz sem sair do lugar.
Ser sábio sem nada saber.
Ser belo sem dar nas vistas.
Ser uma luz intensa que não cega.
Ser o amor que por ti
sinto
sem me alegrar nem sofrer
Tudo isto é o que eu queria
Ser Ser Ser Ser Ser


apenas Ser



....Escrevo uma flor
Não tem cheiro nem cor
Somente palavras
Sei que o vento leva
as palavras.
De mim para ti
de ti para mim

sexta-feira, 20 de março de 2009


"Vejo-me tombar
Por entre brumas de agitação anímica
Sucumbo com utopias
Criadas em nebulosas e entediantes noites de insónia
Alieno-me no vazio dos olhares
Para assim esconder a dor de existir
Para que serve acordar?... Viver?
...Se não tenho quem me proteja daquilo que sou"
"Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa
-Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.
E será sempre o mesmo sonho,
a mesma ausência."
"Tenho frio…
Quando não caminho, quando não respiro
o ar que sai da tua boca.
E quando te caiu uma pestana,e pediste um desejo.
__________Em
cima
ou______________________________________________
Em baixo?
Tens frio, também,quando não há roupa quente
para o fogo fraco na mente
daquele que te retorce a massa
cerebral, sem bem nem o tal
frio.
E esguio que sempre foi esse teu corpo
respira agora o martírio de se
ver sozinho,
ainda que todos os restos
estejam___________________por
_____________perto.
Tenho frio,
segreda-me o teu peito,
rasgado, pagão,
à beira rio."
O meu corpo;
guloso
do açucar da tua boca
Tu!
incendiando a minha
vida
como um vulcão de lava
aberta
Eu sei : tu és
a minha proa
Um ombro que voa
quando lhe encosto
a cabeça


quinta-feira, 19 de março de 2009

não diziam nada
perpetuavam-se no silêncio
de memórias antigas
densas
como se alimentassem
escondidos sinais
dum tempo inocente
correndo alegrias
para um sol mais quente
tão só assim
diziam nada
voavam no silêncio pleno
que morava nas suas faces

...... À minha ilha falta-lhe água

para ser uma ilha......
........ pó
ouro
estrela longínqua
kalahari
sahara
esfinge..........

eis o sangue
a palpitação
a vida
o vinho
o desejo
a carne
o arrojo
a aventura
o canto
de vermelho se vestem os grandes poentes
e são a rosa e os lábios
o fogo vivo a paixão ardente.........


à volta
e tu
no meio
à volta
e tu
em cima
tu
por debaixo
de mim
à volta
e tu
no meio
das minhas mãos
de mim
no centro
por dentro
de mim
à volta
assim
tu
sempre
assim
dentro e fora
de mim
à volta
por dentro
no centro
de ti

quarta-feira, 18 de março de 2009




vem comigo esta noite,

vem...

que as estrelas cintilam no chão de cristal,

a lua sorri e espreita;

tudo é jovem,tudo é permitido...

vem dançar comigo num copo de absinto

e fazer amor com o olhar,

vem namorar com o meu sorriso

e sorrir entre um beijo roubado;

a musica toca

e os corpos vibram,

vai mais um copo!

embriaguemo-nos de sedução

e

bebamos sem pudores...

vem comigo esta noite,

vem...

rende-te,

entrega-te ao proibido;

porque somos nós que fazemos as regras

e somos nós que as quebramos

e o prazer é uma linha de horizonte,

sem fim,

sem barreiras...

então voemos esta noite

que a manhã só nos trará

o vazio de dois corpos,

perdidos no branco dos lençóis,

estranhos,

esquecidos,

para partir de novo...

vem comigo esta noite,

vem...



“vem...”

terça-feira, 17 de março de 2009


Fundamentalmente
é certo que existe
um silêncio por desvendar
em imagens que não sei olhar
Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?

Aqui serenamente
sou feliz
sem qualquer memória do passado
sem qualquer cansaço
mascarado
ou trevas que encubram
qualquer escombro
aqui tudo o que há
é quente e súbito
da tua voz
amor
do nosso encontro único

segunda-feira, 16 de março de 2009

É um sonho ou talvez só uma pausa na penumbra.
Esta massa obscura que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo.

domingo, 15 de março de 2009


Naquele dia
Vestira o meu corpo
Sem a alma,
Vestira o meu corpo
Sem a alegria,
Lavei os dentes
E esqueci do sorriso no lavatório,
Lavei as mãos
E deixei o tacto na toalha;
Nesse dia
Após o trabalho fui dormir,
Deitei o corpo
E reecontrei a alma.
No dia seguinte
Vesti a alma
E deixei metade do corpo esquecido
E a memória no secador de cabelo...
E algo inesquecível de que não me lembro aconteceu:
Porque hoje tenho a alma mutilada
E nem o corpo tenho.



sábado, 14 de março de 2009

Pensar
e não sentir
sentir
e não saber
saber
e não perceber
perceber
e não dizer
dizer
e não poder
poder
e não conseguir
conseguir
e não perecer
perecer
e viver

terça-feira, 10 de março de 2009



Para mim o

amor

fica-me justo

Eu só visto

a paixão

de corpo inteiro

quarta-feira, 4 de março de 2009

.....Aí o teu corpo renasce
à flor da terra.
Tudo principia.

Na grande confusão
deste medo deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de me perder
me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me
quem sou eu
quem és tu?
O amor cerra os olhos, não para ver mas para absorver:
a obscura transparência, a espessura das sombras ligeiras,
a ondulação ardente: a alegria.
Um cavalo corre na lenta velocidade das artérias.
O amor conhece-se sobre a terra coroada:
animal das águas,animal do fogo,animal do ar:
a matéria é só uma, terrestre e divina.

terça-feira, 3 de março de 2009

Mistério


O mistério começa do joelho para cima.
O mistério começa do umbigo para baixo
e nunca termina
...Me pergunto se me esqueceriam,
se eu abrisse as portas
e me afastasse e virasse árvore...
Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.
Uma coisa branca
De carne, de luz,
Talvez uma pedra,
Talvez uma testa,
Uma coisa branca.
Doce e profunda,
Nesta noite funda
Fria e sem Deus.
Uma coisa branca,
Eis o meu desejo,
Que eu quero beijar,
Que eu quero abraçar.
Uma coisa branca
Para me encostar
E afundar o rosto.
Talvez um seio,
Talvez um ventre,
Talvez um braço,
Onde repousar.
Eis o meu desejo,
Uma coisa branca
Bem junto de mim,
Para me sumir,
Para me esquecer,
Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

Poente no meu jardim...
O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.
Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção em que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.
Sugerem...
Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.
Ninhos, onde vencida de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...
........ Se não sou o que queria ser
Estou certa de ter tentado
Sou a força da vontade de querer
Alcançar a luz na longa caminhada...

EU SOU
Uma parte de tudo.
Um pouco.
Quase nada!
EU SOU
"Olha para trás, para toda a jornada:
os cumes, as montanhas,
o longo caminho sinuoso através das florestas,
através dos povoados,
e vê à sua frente um oceano tão vasto
que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre.


Mas não há outra maneira.
O rio não pode voltar.
Ninguém pode voltar.
Voltar é impossível na existência.
Você pode apenas ir em frente.
O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.


E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece,
porque apenas então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano.
Mas tornar-se oceano.
Por um lado é desaparecimento e por outro lado é renascimento.
Assim somos nós.
Voltar é impossível na existência.
Você pode ir em frente e se arriscar..

Coragem!


Torne-se OCEANO!"
Se existe uma chave,
se existe uma chave que não derreta na boca,
se existe uma boca capaz de se abrir para outra boca,
então eu amo,
eu beijo,
eu deixo de esperar.

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para teu corpo no gesto
sem mágoa
de um ombro que se expôe
Tens anos de combustão solar,e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.
Ah forte como a loucura é
o amor,o amor como a electricidade dos campos.........


segunda-feira, 2 de março de 2009

A tua união é voo e o teu voo é união
e o teu longe é perto.
Nisto és abençoado
Deixa o intelecto...e comprende por intuição

domingo, 1 de março de 2009



Hoje se quisesse voava

Sinto-me leve como uma folha em branco

Antes do peso da palavra escrita.

Clara e transparente como o riso de uma criança

Antes do entendimento.

Ágil como o pensamento

Antes dos primeiros porquês.

Não voo eu sempre

Quando os teus braços são as minhas asas?


nasci ar
em forma de gente

nasci luz
em forma de gente

não me compreendo
e respiro-me
e vejo-me textual

a forma de gente faz-me agir fora do que nasci ar
fora do que nasci luz

e nasci ar para forma de gente
e nasci luz para forma de gente

nasci antes de mim
antes de forma de gente

era génio antes de nascer
em forma de gente
a forma de gente não me deixa ser o génio que nasci.

É uma corrente de ar brilhante, é um lugar que emerge
De obscuras veias.
Que leveza no vento!
Estou no meio do espaço.
Oiço os murmúrios do sol.
Saboreio o que sou.
Sou renovado pelo espaço, nasço num espaço verde.
O que eu amo está perto entre a terra e o ar
Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem nunca ter partido
para o norte acesso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse:o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava


Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente



Quero ver
o fundo do mar
esse lugar
de onde se desprendem as ondas
e se arrancam
os olhos aos corais
e onde a morte beija
o livido rosto dos afogados
Quero ver
esse lugar
onde não se vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço